caderno dun rencoroso enfermo de cinefilia
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A súa Montanha Mágica era para min unha visita diaria obrigada, un lugar onde ademais de curiosas ligazóns e referencias a artigos e blogs interesantes un podía atopar textos seus brilhantemente argumentados e construídos desde un pensamento humanista e crítico. Escéptico e racionalista, e malia iso simpático, o Pedro Lemos fechou a súa bitácora en novembro do 2003, mas felizmente reapareceu na rede uns meses despois grazas a ese choio estranho e versátil que é o Multiply. Alí segue, regalándonos palavras, imaxes e mesmo algunha receita de cocinha.

Con todos vostedes, desde Florianópolis (mar por medio), o amigo Pedro Lemos, un home que gosta de mirar ao ceu.

O Qüinqüênio

Curioso como uma conversa despretensiosa pode enveredar por caminhos misteriosos, revelar histórias fantásticas e culminar em ataques de risos convulsivos. Assim ocorreu dia desses.

Um amigo ilustre, sumido há algum tempo, resolveu aparecer numa reunião da turma. Contou-nos então da sua vida: estava casado, morava no interior e ganhava o pão assessorando o prefeito da cidade. A conversa fluiu despudoradamente: o vinho lubrificou a língua e alforriou da prudência as palavras. Quando a última garrafa foi aberta, aquele pacato cidadão que conhecíamos cedeu lugar ao seu alter-ego, uma espécie de entidade que bem lembraria Bocage, e deu início a um comovente desabafo:

- Cinco anos ouvindo merda. Cinco anos! - E repetiu mais uma vez, desta feita marcando as sílabas: - Cin-co-mal-di-tos-a-nos!

As mãos se apoiaram na mesa e seu rosto estampou um sorriso sarcástico; seu queixo desceu lentamente em direção ao peito, enquanto os olhos percorriam lentamente todo o ambiente. A história seguiu:

- Cheguei naquela cidade com um saco de contas a vencer e uma esposa de gosto refinado. Alguém comentou com o prefeito sobre as qualidades da minha pena. Ele ficou interessado. A proposta foi simples: a eleição se aproximava e o partido necessitava de um doutor que escrevesse discursos inflamantes. Como o gaudério tinha fama de preencher cheques generosos - talvez porque o dinheiro na conta não fosse exatamente dele - aceitei a oferta.

A taça esvaziou. Alguém prontamente repôs o soro da verdade:

- Obrigado. Continuando, fui convocado, certa noite, para uma reunião de urgência, mas o automóvel não seguiu para a prefeitura como de costume: o chofer tomou o rumo da periferia, parou na porta de um puteiro e, acreditem, não foram poucas as decisões polidas entre as coxas das melhores prostitutas da cidade. Mas eu não via problema nessas licenciosidades. Afinal, puta tem sido muita gente boa. A estupidez circundante é que cortava o meu sangue e ameaçava minha lucidez. A burrice, prezados amigos, é o cálcio do esqueleto estatal, uma espécie de corolário do poder. Quem ostenta o cetro da autoridade carrega consigo esta presunção indigesta e, nestes cinco anos de experiência, confesso que não ouvi de um homem público palavras capazes de desmenti-la.

Outra pausa. O depoente caíra numa espécie de devaneio hipnótico: embora olhasse fixamente para um ponto abstrato da sala, sabíamos que seus olhos buscavam algo no seu íntimo e a paisagem que encontrou não foi lá das mais agradáveis. Quando recobrou o senso, continuou:

- Conheci dezenas, quiçá centenas de políticos, todos ignorantes, e o maior deles é justamente aquele a quem sirvo. Ontem escrevi um arrazoado que faria a turba uivar de emoção. Mas aquela besta não se contentou em apenas ler o texto: achou necessário improvisar, deixar o seu toque pessoal, tudo para provocar um aliado que trocara de partido. Seu adendo veio como uma enxada no meu canteiro: "Quero dizer a vocês, meus concidadãos, que quando uma pessoa querida nos estoca por trás, machuca, machuca muito".

A sala foi tomada por gargalhadas, algumas histéricas, mas o nosso comediante manteve, mesmo que a custo, uma expressão grave:

- Ainda não acabei! A televisão estava lá e transmitiu tudo: o prefeito a falar e eu, ao seu lado, chorando de rir. Como de regra, alguém terá expiar a culpa e o bode da vez é este que vos fala. Mas estou tranqüilo. A demissão será a minha penitência, um remédio amargo para a vida ordinária que levei neste qüinqüênio. Amanhã, cavalheiros, um homem renascerá das cinzas!

E levantou sua taça num brinde a si mesmo.

Pedro Lemos

2005-04-11, 22:32 | 3 comentarios

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Comentarios

1
De: Martin Pawley Fecha: 2005-04-11 23:03

Velaí van as ligazóns ás Outras Vozes aparecidas até agora nos días estranhos:

O encontro, do Boss (Renas e veados, Portugal)

Assim como são as pessoas, são as criaturas, de Cesar Valente (Carta aberta, Brasil)

Magia africana, de Jorge Neto (Africanidades, Guiné-Bissau)

Espanha é um fantasma português, de Miguel Vale de Almeida (Os tempos que correm, Portugal)

Marcha do Orgulho, de Sara Cacao (Cacaoccino, Portugal)

Nota sobri kauberdiani, de Rui Guilherme (Transpórtis virtual di Kauberdi pa Aulil, Cabo Verde)



2
De: Pedro Lemos Fecha: 2005-04-11 23:21

Eita. Obrigado pelas palavras, Martin! Quero fazer por merecê-las. Um fraternal abraço aqui do sul!



3
De: Martin Pawley Fecha: 2005-04-12 00:37

Xa fas por merecelas, Pedro, abofé. Unha forte aperta a 43º latitude norte.



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