caderno dun rencoroso enfermo de cinefilia
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Hai xa varios meses que esta bitácora non se vía enriquecida pola chegada de outras vozes. Da man do Rui Guilherme, do Transpórtis virtual di Kauberdi pa Aulil, hoxe viaxamos até Cabo Verde para aprendermos algo mais sobre o crioulo, a lingua propria daquela nación da África. O seu estupendo texto ha de resultar especialmente revelador para os leitores galegos, que descubrirán significativas semelhanzas entre o que acontece alí e o que acontece aquí. Muito, muito obrigado, Rui.

Nota sobri kauberdianu

"A diglossic situation", explica Charles Ferguson em 1959, "exists in a society when it has two distinct codes which show clear functional separation; that is, one code is employed in one set of circumstances and the other in an entirely different set". Ora, este parece ser o conceito mais ajustado à descrição da actual situação linguística de Cabo Verde. O actual ministro da cultura do arquipélago, o linguista, ensaísta e romancista Manuel Veiga, autor do primeiro romance escrito em cabo-verdiano -Odju d'Água de 1987- acaba de lançar mais um volume de estudos sobre o tema, intitulado A Construção do Bilinguismo. Em 1998, no livro Bilinguismo ou Diglossia?, Dulce Almada Duarte reunira igualmente um conjunto de estudos abordando a questão linguística de Cabo Verde. Também o poeta e teórico da literatura José Luís C. Hopffer Almada tem publicado dispersamente diferentes estudos sobre o crioulo cabo-verdiano. É este que diz, por exemplo, a propósito da necessidade da atribuição do estatuto de língua de ensino ao kauberdianu: "Na verdadi, ngunoransa di strutura di nos língua ta fase ki txeu kauberdianu pensa ma kiriolu é tantu midjor papiadu (o srebedu) kuantu mas pértu di portuges e podu, ker na strutura, ker na vokabulari". Em parte, é pela decorrente tentativa de aproximação do crioulo ao português -ainda visto por muitos cabo-verdianos como um "português mal falado..."- que aquele pode transformar-se, numa fase mais avançada deste processo de descrioulização, numa língua paralela ao black-english caribenho (quem o diz é Dulce Almada Duarte). Nunca o comportamento impuro das línguas me atormentou. Nem sequer as ameaças à lusofonia -à lusografia, corrigem Jean-Michel Massa ou António Gil Hernández- seja o francês da Guiné-Bissau, seja o inglês de Moçambique, sejam as línguas nacionais onde as houver dinâmicas. Sem ponta de ironia, que lhes façam melhor proveito do que a nossa tão marcenda flor do lácio. E a experiência como professor de português em Cabo Verde ensinou-me que os putos têm o direito -inalienável, passe a redundância- de aprender na língua materna. A diglossia é um desconforto, uma agressão linguística, mas sobretudo social e psíquica. Anunciada por Manuel Veiga para 2005, a oficialização do kauberdianu vai ajudar a debelá-la.

Rui Guilherme, Transpórtis virtual di Kauberdi pa Aulil

2004-12-02, 01:00 | 16 comentarios

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Comentarios

1
De: Martin Pawley Fecha: 2004-12-02 13:08

E se queren ver outro blog con moita presenza do cabo-verdiano, reparen neste: Lantuna

Un dicionario caboverdiano-portugués, aquí.



2
De: ifrit Fecha: 2004-12-02 17:06

Eu quedo con esta parte:
"A diglossia é um desconforto – uma agressão linguística, mas sobretudo social e psíquica"



3
De: ifrit Fecha: 2004-12-02 17:07

Eu quedo con esta parte:
"A diglossia é um desconforto – uma agressão linguística, mas sobretudo social e psíquica"



4
De: Lipe Fecha: 2004-12-03 00:38

Pois na Galiza, a diglossia é a conformidade total. Sob as semelhanças:

Com bastante lógica o crioulo tem de estabelecer uma distância de segurança com o português, mas nós temos de fazer exactamente o contrário porque cá sim que falamos e escrevemos (e incluo-me) "um português mal falado". Na Galiza, é o português (o galego) a língua que está coberta por uma outra língua.

A nom ser que aceitemos que o galego oficial é um crioulo, ou umha "língua de seu", e nom o Frankenstein que é. Na Galiza som os "putos" (em espanhol) da RAG os que negam aos nossos "putos" (em galego-portuguès) o direito a aprender na sua língua que nom é senom o português da Galiza.



5
De: Martin Pawley Fecha: 2004-12-03 01:11

Un portugués mal falado? E non será tamén un latín mal escrito?



6
De: Cesare Fecha: 2004-12-03 02:14

certamente, señor pawley, eu creo que se trata dun céltico mal transmitido.



7
De: Martin Pawley Fecha: 2004-12-03 23:52

Da oficialidade do caboverdiano falaban tamén hoxe en Vieiros.



8
De: Martin Pawley Fecha: 2004-12-04 00:07

Reparen nesta frase do artigo de Vieiros:

A constitución caboverdiana xa recollía no seu artigo noveno que "o Estado creará as condicións para que a lingua caboverdiana se atope en paridade coa lingua portuguesa". Ademais, e aínda que só fixa a oficialidade do portugués, sinala a súa carta magna que "todos os cidadáns teñen deber de coñecer as linguas oficiais", en plural. O ministro Veiga (na foto) creou precisamente un grupo de traballo para estudar a viabilidade da oficialización do creoulo sen que sexa necesario revisar a Constitución.

Ai, ai, ai...



9
De: Rui Guilherme Fecha: 2004-12-04 00:36

Só que é que tenho de agradecer, Martin. Com um abraço.



10
De: Oliveirinha Fecha: 2004-12-04 13:29


Cá para mim o Português é um Gallego mal falado se formos buscar a raiz do Português actual, o gallego, estará na sua génese, nós portugueses, é que fomos divergindo para uma lingua actual que é o PortuguÊs.



11
De: Oliveirinha Fecha: 2004-12-04 13:29


Cá para mim o Português é um Gallego mal falado se formos buscar a raiz do Português actual, o gallego, estará na sua génese, nós portugueses, é que fomos divergindo para uma lingua actual que é o PortuguÊs.



12
De: Lipe Fecha: 2004-12-04 16:38

A ver se me explico, nem a fonética da Galiza ou do Norte, nem a do Sul, nem a das Açores, nem a do Brasil, nem ao do português de Cavo Verde... nenhuma fala e nenhum sotaque é melhor que outro. Todas são "diferentes" pronuncias da mesma língua como também são diferentes as falas da Galiza entre elas, e como é diferente o inglês (ou o espanhol) em cada um dos países em que se falam.

A génese do "português" e do "galego" ("gallego"?) é a mesma língua romance peninsular ocidental... e eu penso que ainda é a mesma língua, só que as falas da Galiza estão muito influenciadas pelo castelhano. Não são as divergências fonéticas as que nos separam.



13
De: António GIL HDEZ/ Fecha: 2005-08-31 18:20

Como sou citado pelo meu nome (sempre é de agradecer, mesmo que seja para não muito bem...) e como é que agora, 31 de Agosto de 2005, acabo de ver o que neste sítio se diz sobre a DIGLOSSIA, permito-me apenas dizer o que já tenho escrito noutros lugares: A DIGLOSSIA OU CORRELACIONAMENTO DIGLÓSSICO É HOJE CONDIÇÃO OU EVIDÊNCIA DE NORMALIDADE SOCIAL ANTES DO QUE LINGUÍSTICA.
Podemos imaginar outros mundos em que não haja nem estados (nem sequer o caboverdeano) nem escritas (nem sequer incorretas), mas seriam mundos imaginados. Os mundos reais são estes em que há estados e, com eles, realizações gráficas da língua, para além das orais: umas e outras diversas e mesmo divergentes em si e correlativamente. Justamente esse facto complexo é a diglossia...



14
De: Martin Pawley Fecha: 2005-08-31 23:56

Vaia, António, un pracer velo pasar por aquí. Penso que nunca antes sucedera isto de que unha persoa citada nun post aparecese polo blog aportando novas ideas. Fico moi agradecido.



15
De: suso lista Fecha: 2006-09-12 23:52

Supoño que a raiz, é amesma pra todos, na miña aldea, falamos, e damos risa os veciños de 9km, por decir, fotes, viñetes e nada me trouxetes, asique vos veredes. Penso que como di Antonio, o mundo real é este, e estouvos a enterder da misma maneira que vós me entendedes a min.



16
De: suso lista Fecha: 2006-09-12 23:52

Supoño que a raiz, é amesma pra todos, na miña aldea, falamos, e damos risa os veciños de 9km, por decir, fotes, viñetes e nada me trouxetes, asique vos veredes. Penso que como di Antonio, o mundo real é este, e estouvos a enterder da misma maneira que vós me entendedes a min.



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