caderno dun rencoroso enfermo de cinefilia
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Estou disfrutando moito das Comédias para se Ler na Escola, de Luis Fernando Veríssimo, que tivo a ben regalarme polo meu aniversario a miña amiga Susana. Dentro da liña de difusión cultural que caracteriza a este blog, hoxe póñolles un estupendo texto tirado dese libro, un dos moitos nos que o autor xoga gozosamente coas palabras. Afórrolles a única consulta ao dicionario que é verdadeiramente precisa: jargão=linguagem adulterada ou incompreensível; linguagem específica utilizada por sectores profisionais ou sociais; linguagem codificada de determinados grupos, utilizada com o objectivo de evitar a sua compreensão por parte de elementos exteriores a esses grupos (Dicionário Porto Editora).

E agora, aí vai:

O Jargão

Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber é "a que horas servem o bufê?". Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.
Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:
-Recolher a traquineta!
-Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.
(O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas; e nos ataca a bombordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e estranhamente, a uma professora que eu tive, no primário.)
-Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.
-Ciudado com a sanfona de Abelardo!
(A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condiçoes atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.)
-Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela, senão afundamos e o capitão é o primeiro a pular!
-Cortar o cabo de Eustáquio!
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando un jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generealizada para enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o meu enfoque diferente -minha defesa de um overspread corretivo sobre base de pagamentos, por exemplo- não era uma novidade que merecia estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é o certo?

Luis Fernando Veríssimo
"Comédias para se Ler na Escola"
Publicações Dom Quixote

2003-07-23, 11:53 | 2 comentarios

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Comentarios

1
De: EMF Fecha: 2003-07-23 21:10

Amelie, amelie! :-)))

Nunca saín do cinema cun sorriso tan parvo -e feliz- coma con Amelie Poulain!.



2
De: Pedro Lemos Fecha: 2003-07-24 00:51

Luis Fernando Verissimo é mesmo o melhor contista brasileiro da atualidade. O livro citado é uma coletânea específica de contos já publicados. Recomendo, se puderes ter acesso, a leitura de "O Analista de Bagé", o qual tem por tema o regionalismo gaúcho (habitante do extremo-sul do Brasil). Abraços!



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